Movimento Brasil Livre (MBL) publica notícia falsa para 1,8 milhão de seguidores

MBL compartilhou link de veículo que blinda identidade de seu real proprietário. Reportagem não tem autor identificado

Na esteira das notícias sobre os massacres ocorridos nas prisões das regiões Norte e Nordeste, o MBL compartilhou uma publicação do veículo Jornalivre sobre uma suposta indenização que a família de um dos presos receberia. Contudo, a informação divulgada no dia 10 de janeiro é falsa e o veículo que a publicou blinda sua real identidade.

Jornalivre disse que a família de Errailson Ramos de Miranda irá receber R$ 150 mil de indenização pela sua morte. Miranda cumpria pena pelo assassinato e estupro de uma criança e foi morto na rebelião no Compaj (Complexo Penitenciário Anísio Jobim), em Manaus, Amazonas, no primeiro dia de 2017.

Não há qualquer informação sobre a suposta indenização no texto, como número do processo, juíz ou o foro responsável pela decisão. Em consulta ao Tribunal de Justiça do Amazonas é possível checar que não há nenhum processo envolvendo indenização para a família de Miranda. O Judiciário amazonense voltou do recesso de fim de ano na segunda-feira, dia 9, ou seja, um dia antes da suposta decisão publicada pelo Jornalivre na terça-feira, dia 10 de janeiro. Além disso, decisões que envolvem indenizações a serem pagas pelo Estado costumam se arrastar por anos.

O texto não tem autor identificado. Ainda assim, a postagem do MBL já passou de 10 mil interações, 6.564 compartilhamentos e 651 comentários no Facebook. O movimento tem 1,8 milhão de likes na rede social de Mark Zuckerberg.

Não há identificação, também, no site do Jornalivre, apenas o slogan “O jornalismo em prol da liberdade”. Apesar do primeiro texto do site ter sido publicado em 6 de julho de 2016, a seção “contato” ainda não há nenhuma informação.

Já o domínio do Jornalivre está registrado em Scottsdale, cidade de 217 mil habitantes do Arizona, Estados Unidos. A razão dessa localização incomum é o uso da empresa Domains by Proxy para blindar o real proprietário do site. Sob o slogan “Sua identidade não é de interesse de ninguém, apenas seu” a Domains by Proxy vende o anonimato para quem quiser ter um endereço na internet sem poder ser identificado. O preço é de R$ 5 por ano e está disponível no site da companhia.

Não há nenhuma publicidade ou informação sobre qual a fonte de receita do Jornalivre em seu site. Em sua página no Facebook, também é possível encontrar apenas uma frase na biografia de descrição: “Mídia com liberdade de expressão, sem amarras do poder estatal”. O Jornalivre tem 73.364 likes.

A identificação de um nome para cada domínio da internet é uma exigência do ICANN, organização sem fins lucrativos responsável por gerenciar os endereços da rede mundial de computadores. Sites de empresas, por exemplo, costumam levar o registro do nome de um dos sócios ou diretores, as vezes até mesmo o CNPJ da companhia.

Além da publicação do Jornalivre, é possível encontrar a informação falsa de que a família de Miranda irá receber uma indenização de R$ 150 em outros locais da internet.

Indenização aos familiares

O governador do Amazonas José Melo (PROS) determinou, no dia 3 de janeiro, que a Procuradoria-Geral do Estado trabalhe em conjunto com outros órgãos do governo para estudar a concessão de indenizações para a família de mortos nas recentes rebeliões. Contudo, não há a previsão de valor e os trabalhos ainda estão em estágio inicial.

Na contagem da Folha de São Paulo, já são 134 mortos nas rebeliões prisonais brasileiras desde o início de 2017 até 16 de janeiro. Com 59 mortos, o motim no Compaj foi o mais sangrento até o momento.

Segundo reportagem do Nexo, o Amazonas conta com apenas dois defensores públicos — advogados responsáveis por auxiliar a população que não pode arcar com os custos do Judiciário. A Defensoria Pública do Amazonas é um dos órgãos colocados na força-tarefa proposta pelo governador José Melo.

Outro lado

A reportagem enviou perguntas por email para o MBL, mensagem privada no Facebook para o Jornalivre e também entrou em contato por telefone com Kim Kataguiri, liderança do Movimento Brasil Livre, que não quis comentar o assunto até ser contactado por email. Contudo, Kataguiri não atendeu as ligações da reportagem após o envio da mensagem eletrônica.

Não houve nenhuma resposta até a publicação deste texto.

Nas eleições de 2016, um prefeito e sete vereadores apoiados pelo MBL foram eleitos, inclusive o prefeito de Monte Sião (MG), Zé Pocai (PPS), e Fernando Holiday (DEM), vereador em São Paulo.

Seguem as perguntas enviadas:

Jornalivre

  • Qual é a fonte da notícia que indica que a família de Errailson Ramos de Miranda irá receber indenização de R$ 150 mil?
  • Quantos jornalistas trabalham no Jornalivre? Qual a fonte de financiamento do projeto?
  • Qual a sede e o jornalista responsável pelo Jornalivre?
  • Qual o motivo do Jornalivre blindar a identidade do domínio do seu site?

MBL

  • O MBL irá publicar uma errata a respeito da notícia?
  • Qual é a política a respeito das notícias compartilhadas pelo MBL?
  • O MBL tem alguma ligação com o Jornalivre?
  • O MBL tem conhecimento de que o Jornalivre usa um serviço para blindar a identidade do real proprietário do domínio de seu site? O site está registrado na cidade de Scottsdale, EUA, no nome da companhia Domains by Proxy.

Publicado originalmente em 17 de Janeiro, 2017

Por Thales Schmidt 
política, sociedade e direitos humanos. jornalista pela unesp
Twitter: @tschmidtb

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